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O Brasil está preparando jovens para uma guerra que já acabou

Por Leandro Monteiro

Estamos formando soldados — mas não os especialistas que o Brasil precisa para construir capacidade

O Brasil ainda estrutura sua defesa como se estivesse se preparando para guerras que já não existem. Enquanto o mundo avança para conflitos definidos por dados, inteligência aplicada, sistemas autônomos e decisões em tempo real, seguimos sustentando um modelo baseado em rotatividade, volume e presença física — um modelo que consome recursos, mas não constrói capacidade real de dissuasão.

Essa não é uma discussão ideológica, e muito menos uma crítica institucional; trata-se de um problema essencialmente operacional. O serviço militar obrigatório, da forma como existe hoje, deixou de cumprir uma função estratégica e passou, na prática, a operar como um mecanismo de manutenção de estrutura. Ao treinar jovens por 12 meses, sem o tempo necessário para desenvolver especialização técnica profunda, o sistema gera contingente, mas não gera competência — e, no contexto atual, contingente sem especialização tem impacto limitado.

E aqui a pergunta precisa ser feita com clareza: o serviço militar obrigatório ainda contribui, de fato, para a defesa do Brasil?

Se o objetivo é preparar o país para os conflitos do século XXI, a resposta é difícil de sustentar. O modelo atual não forma especialistas, não constrói inteligência e não desenvolve capacidade proporcional às ameaças modernas. Ele mantém a estrutura funcionando, mas não entrega vantagem estratégica.

O Brasil continua obrigando jovens a servir, mas não consegue explicar com precisão para qual tipo de guerra eles estão sendo preparados.

A natureza da guerra mudou, e com ela mudou também o que define vantagem entre nações. Não se trata mais de quem mobiliza mais pessoas, mas de quem é capaz de tomar melhores decisões, com mais velocidade e melhor informação. Um operador altamente treinado, com domínio de sistemas e contexto, pode ter hoje mais impacto estratégico do que dezenas de soldados formados dentro de um modelo tradicional, da mesma forma que um analista bem posicionado, com acesso aos dados corretos, consegue antecipar movimentos, reduzir riscos e evitar conflitos antes mesmo que eles se materializem.

O ponto central, portanto, não é tecnologia isoladamente, mas a capacidade de transformar tecnologia em inteligência de decisão. Países não vencem guerras por possuírem sistemas; vencem por saberem integrá-los, interpretá-los e utilizá-los de forma coordenada. É essa capacidade que constrói dissuasão real.

E isso nos leva a uma segunda pergunta, igualmente direta e necessária: o Brasil precisa de generais formados pela força — ou de generais formados pela capacidade de decidir com base em dados?

Se a guerra moderna é definida por informação, velocidade e precisão, faz pouco sentido que o topo da hierarquia militar continue sendo construído predominantemente a partir de trajetórias orientadas à força e ao comando tradicional. O general do século XXI não pode ser apenas um comandante de tropas; ele precisa ser um decisor sistêmico, capaz de interpretar dados, construir cenários e agir em ambientes de alta incerteza.

Isso não elimina o valor da experiência operacional, mas muda completamente o seu peso dentro da equação. Liderar, hoje, exige compreender sistemas complexos, antecipar movimentos e integrar tecnologia, inteligência e contexto em tempo real.

Mas existe um ponto ainda mais estrutural que precisa ser enfrentado, e que raramente entra nesse debate: o Brasil, apesar de ter um dos maiores potenciais de inovação do mundo, não criou as condições legais para desenvolver inteligência aplicada à defesa em escala.

Hoje, o governo brasileiro tem limitações relevantes para investir diretamente, de forma estruturada e contínua, em empresas que desenvolvem ontologias de dados, plataformas de decisão e sistemas de inteligência aplicados à segurança e à defesa. Na prática, isso impede o surgimento de um ecossistema capaz de competir globalmente nesse campo.

Enquanto isso, outros países entenderam esse movimento há anos. O governo dos Estados Unidos, por exemplo, foi determinante na criação e no crescimento da Palantir Technologies, apoiando o desenvolvimento de uma plataforma que hoje redefine como governos e organizações tomam decisões baseadas em dados.

O Brasil ainda não fez esse movimento.

E talvez seja exatamente por isso que a discussão sobre defesa continua presa ao passado.

Se quisermos levar a sério a construção de uma capacidade real de soberania, será inevitável revisar o arcabouço legal que hoje limita esse tipo de investimento. Não se trata apenas de comprar tecnologia, mas de criar, dentro do país, empresas capazes de desenvolver as plataformas que irão sustentar as decisões críticas do futuro.

Está na hora de fazermos uma pergunta mais ambiciosa: por que o Brasil ainda não criou a sua própria plataforma de inteligência para defesa?

E mais do que isso: por que não podemos criar algo ainda melhor?

Porque talento existe. Mercado existe. Necessidade existe.

O que falta é decisão.

Quando mantemos jovens em atividades de baixa relevância estratégica, muitas vezes com pouca aplicação prática, criamos uma sensação de preparo que não corresponde à realidade. Mais do que isso, direcionamos recursos — financeiros e humanos — para estruturas que não maximizam a capacidade do país.

Defesa não pode ser confundida com assistência social. O Exército não deve assumir o papel de alternativa de ocupação temporária, pois esse desvio de função fragiliza tanto a instituição quanto o próprio conceito de defesa nacional. A formação cidadã é importante, mas precisa ser tratada em outro modelo, com outra lógica e outros objetivos.

Se quisermos avançar, será necessário fazer uma escolha clara entre manter um modelo baseado em presença ou construir uma capacidade real de resposta. Uma defesa moderna exige profissionalização, o que implica um contingente menor, porém altamente qualificado, bem remunerado, continuamente treinado e profundamente integrado a um ecossistema de tecnologia e inteligência.

Isso exige também uma mudança na forma como pensamos defesa. Não se trata apenas de efetivo, mas de capacidade. Não se trata apenas de estrutura, mas de decisão.

No fundo, o que está em jogo vai além da defesa. Estamos falando da capacidade do Brasil de revisar seus próprios modelos mentais e atualizar a forma como toma decisões estruturais.

O mundo mudou. A natureza dos conflitos mudou. A velocidade das decisões mudou.

Mas o modelo mental ainda não.

E talvez essa seja a reflexão mais importante neste momento.

A eleição para presidente está na nossa porta neste ano.

A pergunta que fica não é apenas quem vai governar o país, mas com qual visão de futuro.

Vamos continuar elegendo líderes comprometidos com estruturas do passado — ou finalmente escolher alguém capaz de conduzir o Brasil para um modelo baseado em inteligência, capacidade e decisão?

Porque, no século XXI, soberania não é garantida por presença.

É garantida por capacidade.

E capacidade, hoje, significa inteligência aplicada à decisão.

 

Leandro Monteiro é vice-presidente da ADVB, executivo internacional, formado em Administração de empresas pela Universidade Mackenzie, MBA em Varejo (FIA) e especialização em Marketing Engineer and Digital pela Université Grenoble Alpes. Atua como Diretor Executivo da AAXIS na América Latina e teve passagens por multinacionais como Heineken, Capri-Sun e MBRF.

 

 

* As ideias e opiniões expressas nos artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões da ADVB. Para publicar um artigo ou matéria neste Portal ADVB, envie para redacao@advb.org para aprovação da publicação.

1 COMENTÁRIO

  1. Essa reflexão é ótima em sua amplitude, tática em sua mobilização, essencial ao planejamento futuro.
    As guerras, nefastas, não deixam de abrir caminhos para as ciências e inovações tecnológicas. A Ucrânia já está mostrando isso claramente.
    Parabéns pelo artigo. E que venham os debates.

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