HomeTECNOLOGIAAprendemos a prever tudo. Menos o que realmente importa.

Aprendemos a prever tudo. Menos o que realmente importa.

Por Leandro Monteiro - vp ADVB

Existe algo inquietante no fato de que aprendemos a prever quase tudo antes que aconteça e, ainda assim, continuamos sem uma resposta clara para o que fazer com aquilo que já foi previsto, como se a tecnologia tivesse avançado até o limite do “como” e, exatamente ali, tivesse parado diante de um silêncio que não consegue atravessar.

Hoje, modelos antecipam cenários, sistemas correlacionam variáveis e algoritmos identificam padrões com uma precisão que, há pouco tempo, pareceria impossível, criando a sensação de que a realidade está finalmente sob controle, como se bastasse observar os dados com atenção suficiente para que a decisão surgisse naturalmente a partir deles.

Mas não surge, porque prever não é decidir, e nenhum sistema, por mais sofisticado que seja, responde à pergunta que inevitavelmente aparece quando diferentes caminhos continuam possíveis e quando todos parecem, à primeira vista, igualmente corretos.

É nesse ponto que algo muda.

Em um ambiente onde praticamente tudo foi projetado para eliminar incerteza, onde o que pode ser previsto já foi previsto e onde o que pode ser automatizado já foi automatizado, existe uma escolha que não se encaixa nessa lógica, não porque esteja errada, mas porque não deveria ser necessária.

Entre tudo o que poderia ser levado, entre qualquer objeto simbólico, qualquer referência pessoal ou qualquer lembrança, o astronauta Victor Glover faz uma escolha que não melhora desempenho, não altera a operação e não contribui para o funcionamento da missão, ao decidir levar um livro, e não qualquer livro, mas a Bíblia, em uma decisão que não foi exigida, não foi padronizada e não foi replicada pelos outros três astronautas da tripulação, que seguiram caminhos diferentes e não expressam publicamente a mesma fé.

E é exatamente por isso que ela importa, porque, em um sistema onde tudo converge para eliminar variáveis, aquilo que não pode ser explicado pelo sistema passa a carregar um significado que o próprio sistema não consegue absorver.

A tecnologia consegue prever trajetórias, antecipar falhas, ajustar parâmetros e responder a eventos com precisão extraordinária, mas não interpreta o que esses eventos significam quando a decisão deixa de ser puramente técnica e passa a exigir escolha, revelando uma lacuna que não é de capacidade, mas de natureza.

Nenhum modelo responde por que um caminho deve ser escolhido em vez de outro quando todos são possíveis, e nenhum algoritmo sustenta coerência quando a decisão envolve mais do que cálculo, o que torna evidente que existe uma dimensão da experiência humana que não pode ser resolvida apenas com mais dados ou mais tecnologia.

É exatamente aí que algo aparentemente simples começa a fazer sentido.

A escolha de levar a Bíblia não altera o sistema, mas altera quem decide dentro dele, não muda o funcionamento da missão, mas muda a forma como a realidade é interpretada, não resolve o “como”, mas sustenta o “por quê”.

No espaço, esse contraste se intensifica de uma forma que não pode ser reproduzida aqui na Terra, porque, enquanto aqui estamos cercados de referências, distrações e uma sensação constante de controle que suaviza as perguntas mais profundas, lá essa camada desaparece, dando lugar a um ambiente onde o silêncio não pode ser ignorado, a distância não pode ser reduzida e a própria percepção da existência ganha outra escala.

Ler a Bíblia nesse contexto não é repetir um hábito em um lugar diferente, mas experimentar aquele conteúdo em um estado onde tudo ao redor amplifica o que está sendo vivido, onde a ausência de excesso revela o essencial e onde a leitura deixa de ser apenas reflexão para se tornar confronto com aquilo que realmente importa.

O que na Terra pode ser rotina, no espaço se transforma em necessidade, o que na Terra pode ser leitura, no espaço se transforma em experiência, e o que na Terra pode ser apenas pensamento, no espaço se aproxima de algo mais profundo.

Porque, em meio ao silêncio, à distância e à incerteza, existe a possibilidade de abrir a Bíblia e, através dela, falar com Deus em um lugar onde quase ninguém esteve, criando uma experiência que não pode ser replicada, medida ou explicada dentro da lógica do sistema.

Enquanto a humanidade celebra o avanço tecnológico que tornou tudo isso possível, existe alguém vivendo algo que não depende dessa tecnologia, mas que ganha uma intensidade única exatamente por acontecer ali.

E talvez seja exatamente por isso que, entre todas as conquistas possíveis de uma missão como essa, essa seja a mais difícil de explicar, porque não está no que pode ser observado, mas no que é vivido.

No fim, a tecnologia pode prever quase tudo, os sistemas podem reduzir a incerteza a níveis mínimos e a engenharia pode tornar o impossível viável, mas nenhuma dessas camadas substitui aquilo que continua sendo inevitavelmente humano.

A necessidade de dar sentido ao que está acontecendo.

E, para alguém que escolheu levar a Bíblia, esse sentido não está nos dados, nem nos sistemas e nem na missão em si, mas em algo que, naquele contexto, talvez represente o maior privilégio de todos.

Falar com Deus no espaço, em um lugar onde poucos estarão ao longo da história, não como ideia, mas como experiência real, muda completamente a escala daquilo que consideramos extraordinário, porque deixa de ser apenas sobre até onde conseguimos chegar e passa a ser sobre o que fazemos com isso quando chegamos.

 

Leandro Monteiro é vice-presidente da ADVB, executivo internacional, formado em Administração de empresas pela Universidade Mackenzie, MBA em Varejo (FIA) e especialização em Marketing Engineer and Digital pela Université Grenoble Alpes. Atua como Diretor Executivo da AAXIS na América Latina e teve passagens por multinacionais como Heineken, Capri-Sun e MBRF.

 

 

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