Entrevista de Livio Giosa, presidente da ADVB, ao vp da Fundação Brasileira de Marketing Nily Geller
Sustentabilidade é a capacidade de suprir as necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias! Significa usar recursos naturais de forma consciente e responsável para garantir a manutenção da vida e do planeta a longo prazo, equilibrando o tripé social, ambiental e econômico.
A Sustentabilidade é influenciada por diversos fatores, entre os quais podemos destacar o ESG no quesito ambiental do contexto corporativo, as diretrizes governamentais para o uso de energia renovável, o consumo consciente e a mobilidade sustentável por parte das pessoas.
As tragédias climáticas têm sido cada vez mais frequentes e a responsabilidade tem caído em cima da falta de preservação da natureza por países, empresas e pessoas.
Dentre os que defendem essa tese está o Prêmio Nobel da Paz Al Gore, ex-Vice-presidente dos EUA na gestão de Bill Clinton.
No entanto, há os que atribuem esses acontecimentos ao ciclo natural da Terra e dentre os defensores dessa tese se encontra o Presidente dos EUA Donald Trump.
A ECO 92 no Rio de Janeiro, um evento mundial sobre o tema, teve como resultado uma série de recomendações que nem todos os países levaram avante.
Em 2025 esse evento mundial, agora denominado de COP 30, com a participação de nosso entrevistado, ocorreu em Belém no Pará. Apesar da presença de 196 países, não compareceram importantes líderes mundiais como Donald Trump, Xi Jinping, Vladimir Putin, Giorgia Meloni e Narendra Modi.Nosso entrevistado Lívio Giosa é um dos líderes brasileiros na defesa da Sustentabilidade e assim teremos a possibilidade de compreender melhor os desafios que temos pela frente
Vamos a entrevista:
Considerando que a cada mudança de nosso governo muda a política sobre Sustentabilidade, o que é preciso para que os rumos do Brasil neste quesito sejam do Estado e não do Governo Brasileiro?
A questão da sustentabilidade já se tornou um fato absolutamente reconhecido pela sociedade mundial, pelos governos, pelas organizações do terceiro setor e pelas empresas. Quer dizer, a humanidade já reconhece essa questão da sustentabilidade e, mais do que isso, está muito presente na percepção sobre as mudanças climáticas. Então, não há o que mais justificar sobre a falta de percepção estratégica de governos, não importa de qual presença partidária esteja sentado na cadeira presidencial, mas o governo de qualquer país, de qualquer estado, de qualquer município, deve, sem dúvida alguma, se organizar para se estruturar e ter um pensamento estratégico sobre a visão da sustentabilidade, porque isto tem a ver com a vida das pessoas na Terra. Não há mais o que diagnosticar, a não ser este princípio mais do que absoluto, o que está em jogo é a vida das pessoas na Terra.

Os resultados obtidos pela COP30 foram satisfatórios para o programa de preservação do clima no planeta?
Na verdade, a COP 30 foi um desastre, um desgaste total na questão do futuro da humanidade, na questão da preservação das nossas espécies e das grandes discussões multilaterais que já ocorrem. Os principais temas, como a redução das emissões de gases de efeito estufa, não foram discutidos. A questão das mudanças climáticas e as condições para cada país determinar estas reduções de emissões e suas atividades relativas a essas ações também não foram discutidas. Muito do que se falou, que se norteou, é que a COP 30 seria a grande COP da transformação. Isso tudo não ocorreu. Não houve consenso entre os países. E o que se tirou aqui, especialmente para os brasileiros que acompanharam a COP 30, é que não havendo consenso, nada se discute, nada vai em frente na COP. E um consenso entre 196 países é absolutamente complexo. Então, os grandes temas ficaram de lado, as pessoas saíram com uma certa frustração mesmo com as discussões e tudo se jogou para as reuniões que vão dar continuidade aos temas em comitês específicos, para que na próxima COP, que vai ser na Turquia, possa se avançar mais um pouco em relação a essas temáticas. Então, realmente foi uma certa frustração, mesmo porque o governo brasileiro empreendeu uma possibilidade de os países colocarem dinheiro num fundo de preservação de florestas, que seria especialmente para a floresta amazônica e outras florestas subtropicais de diversos países do mundo, pensando num aporte de 90 bilhões de dólares, mas nós só conseguimos 14 bilhões. Os países não se aprofundaram nessa discussão, então também ficou esse fundo quase que inoperante, esperando novas contribuições e hoje, com os embates internacionais, as guerras ainda acontecendo, pouco se fala sobre essa questão climática.
Como convencer as empresas a aderir à agenda ESG, mesmo quando os resultados econômicos não são compensadores na adoção dessa agenda?
As empresas, de uma certa forma, já estão aderindo às práticas sustentáveis e à agenda ESG, porque quando as grandes organizações entenderam que esse era um fator preponderante na percepção dos seus produtos e serviços, numa visão estratégica de atender a essas demandas que os cientistas do clima apresentaram nas reuniões, todas as COPs, dos estudos, das pesquisas que estão circulando no mundo inteiro, as empresas entenderam que deveriam fazer a sua parte. E quando as grandes empresas adotam o modelo ESG, que é uma transformação da governança, os aportes de projetos sociais internos e externos, a preocupação com o clima e seus impactos, redução das emissões de gases de efeito de estufa nas suas atividades, questão da mobilidade estratégica, logística, elas começaram a desenvolver muitas atividades sendo o plano final a redução das emissões. E a hora em que elas fazem essa redução através dos estudos que compreendem o que a gente chama escopo 1, escopo 2, escopo 3. Quando uma empresa faz a sua parte, ela atende ao escopo 1. Quando ela observa especialmente a questão do uso de energia na sua atividade, ela atende ao escopo 2. E quando ela acelera para atender ao escopo 3, ela está envolvendo toda a sua malha de fornecedores e todo o seu ecossistema de atuação. E quando você fala de fornecedores das grandes empresas, você está falando em outras grandes empresas que fornecem para as grandes empresas, você está falando das médias, das pequenas e das microempresas. Então, as grandes empresas aceleraram demais essas contribuições da agenda ESG. Todas as empresas que estão na Bolsa têm essa obrigatoriedade, porque tem o ISE, que é o Índice de Sustentabilidade Empresarial, que norteia a participação das empresas na Bolsa. E agora, ainda mais com as agendas internacionais, onde o calendário de demonstrações financeiras exige que na demonstração financeira, que já está em vigência, as empresas façam um relato das suas preocupações e estratégias de gestão de riscos climáticos. Estamos falando do IFRS S1 – Sustentabilidade Geral e IFRS S2 – Riscos Climáticos, que são relatórios contábeis que as agendas internacionais determinaram. As instituições internacionais e todas as empresas em Bolsa são obrigadas agora a retratar isso, nas Bolsas Internacionais e na Bolsa Brasileira, na B3. Então, há uma forte atuação nesta dimensão, e como eu falo, quando os fornecedores são atingidos, as empresas têm que acabar admitindo suas boas práticas, porque estão dentro da malha do compliance, da governança das organizações. Então a gente vê que as empresas estão fazendo a sua parte, algumas mais, algumas menos, mas temos muito ainda que realizar nesse campo.
Como convencer as pessoas a adquirir apenas produtos fabricados dentro da agenda ESG se eles forem mais caros?
O conjunto da sociedade ainda não tem plena percepção sobre isso e por essa razão que o nosso Instituto de Responsabilidade Socioambiental da ADVB propôs, no final do ano passado, a utilização de uma plataforma que a gente chamou o Movimento pela Sustentabilidade. Esse Movimento vai dar condições para que pessoas de todos os níveis possam entender mais a questão da sustentabilidade, nas escolas, no meio acadêmico, para a gente cada vez mais introduzir o conceito e o consumidor exigir do fabricante de produtos ou serviços posturas cada vez mais sustentáveis. A própria indústria tem se aperfeiçoado nessas práticas, os produtos já não são tão mais caros como eram antigamente, porque há uma estratégia de envolvimento em várias frentes. As construtoras, por exemplo, têm entregue edifícios estruturados com energia solar, com eficiência energética, com uso racional de água, com materiais mais sustentáveis, com logística de recolhimento dos materiais das obras, também com programas sustentáveis. Então a gente vê em várias áreas de atuação da economia um conjunto de boas práticas e isso favorece o consumidor e favorece a organização que está preocupada com esse modelo sustentável de entregas de produtos ou serviços.
Em todos os eventos da ADVB em que é abordada a questão da sustentabilidade, o nosso entrevistado insiste para que cada participante faça sua parte na defesa do clima. Como transformar isso numa adesão massiva da população?
Nos eventos da ADVB realmente introduzimos muito essa questão, já que criamos o Instituto de Responsabilidade Socioambiental em 1995, quando praticamente ninguém discutia essa temática. Nós fomos pioneiros na introdução do tema no ambiente corporativo, junto às instituições empresariais. Então a ADVB tem uma longa jornada de boas práticas, com cursos, pesquisas, fóruns. Em todo evento da ADVB a gente faz um processo de compensação das emissões do evento, estimulando as pessoas a preencherem um documento que pegam pelo QR Code no próprio celular. Analisamos as respostas e identificamos metodologicamente o volume de emissão e o que isso significa em compensação com o plantio de árvores. Criamos um programa chamado Bosques Urbanos e nesse espaço, que é uma parceria com o Poder Público, plantamos as árvores referentes às emissões de carbono daquele evento. Então nos preocupamos muito e cada vez mais introduzimos o tema fazendo a nossa parte. É evidente que os veículos de comunicação precisam estar mais próximos, que a comunidade ligada à educação, seja no nível primário, secundário e acadêmico, todos devem abordar o tema constantemente, porque o ser humano precisa estar absolutamente conscientizado dessas boas práticas.
Os EUA são a maior economia do mundo e o seu atual governo é oficialmente negacionista do clima. Uma agenda de defesa do clima terá êxito com os EUA não se importando com a queima de CO2?
Embora o Presidente dos Estados Unidos seja negacionista em relação à questão do clima, como os Estados Unidos são independentes em seus estados, muitos deles adotam práticas sustentáveis na veia. Então os Estados Unidos têm essa dimensão um pouco diferenciada dos demais países do mundo, sendo que muitos estados continuam adotando práticas sustentáveis, não só do ponto de vista coletivo, mas também as empresas estão fazendo muito a sua parte e discutindo bastante a questão do clima e os seus impactos. Isso é devido a que os Estados Unidos, de uma certa forma, são um dos países que mais registraram impactos climáticos, um aumento expressivo dos eventos climáticos extremos locais. Então isso acaba impactando a sociedade que reage pensando na questão climática. E a gente espera que essa reação possa ser convertida em boas práticas sustentáveis pelo coletivo dos estados americanos.

Lívio Giosa é Presidente da ADVB – Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil, Presidente do Conselho do CNDA – Conselho Nacional de Defesa Ambiental, Presidente do CENAM – Centro Nacional de Modernização Empresarial, Administrador de Empresas com Pós-Graduação em “Business Administration” pela New York University, Sócio-Diretor da G,LM Assessoria Empresarial. Professor, consultor estratégico, palestrante e escritor.
Nily Geller é Engenheiro Eletrônico formado pela PUC RJ com larga experiência no setor de telecomunicações, atualmente VP da FBM – Fundação Brasileira de Marketing, Conselheiro da ADVB – Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil, Diretor da Área de Telecom da FIESP e Sócio Diretor da Janar Engenharia.
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