O Brasil assiste, de forma silenciosa, porém consistente, à consolidação de um fenômeno que transcende a dimensão espiritual: a transformação de grandes templos religiosos em vetores estratégicos de desenvolvimento econômico, posicionamento institucional e atração turística.
A construção de megatemplos – sejam eles católicos, evangélicos ou ligados a denominações internacionais como A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – revela uma nova lógica: a fé, além de expressão espiritual, passa a ser estruturada como experiência.
Projetos como a Nova Basílica do Divino Pai Eterno, em Trindade (GO), sob a liderança da Congregação do Santíssimo Redentor (C.Ss.R.), com sua monumental cúpula projetada para alcançar 120 metros de altura, ou os novos templos em cidades como João Pessoa, Ribeirão Preto e Belo Horizonte, não são apenas espaços de culto. São, na prática, âncoras de fluxo humano contínuo, concebidas para receber milhares de pessoas simultaneamente e ao longo de todo o ano.
Nesse contexto, elementos simbólicos ganham protagonismo estratégico. Um exemplo emblemático é o sino monumental da nova basílica do Divino Pai Eterno – avaliado em cerca de seis milhões de reais – que transcende sua função litúrgica para se tornar um ícone de comunicação. Mais do que um instrumento sonoro, o sino representa tradição, permanência e grandeza, funcionando como um poderoso ativo de identidade e atração.
Essa lógica aproxima o turismo religioso de modelos já consolidados no turismo tradicional: destinos estruturados, com calendário próprio, infraestrutura integrada e forte identidade simbólica.
O primeiro vetor dessa transformação é a arquitetura.
A grandiosidade dessas obras não é apenas estética; ela comunica. Templos monumentais funcionam como mídia permanente, estabelecendo presença física e simbólica no território. A escala, a imponência e o cuidado construtivo transmitem valores como solidez, transcendência e autoridade.
O segundo vetor é a experiência coletiva.
Peregrinações, romarias e grandes celebrações segmentadas deixam de ser eventos pontuais e passam a compor um fluxo contínuo. O fiel torna-se também visitante recorrente, inserido em uma jornada emocional que combina espiritualidade, pertencimento e vivência comunitária.
O terceiro vetor é o impacto econômico.
Ao redor desses megatemplos desenvolve-se um ecossistema robusto: hotéis, restaurantes, comércio local, serviços de transporte e produtos religiosos. Cidades como Aparecida (SP) já demonstraram, ao longo das décadas, como a fé pode se converter em um motor sustentável de desenvolvimento regional. Guaratinguetá (SP) ali do lado segue a mesma fórmula
Mais recentemente, observa-se uma sofisticação adicional: o posicionamento estratégico das denominações. Enquanto a Igreja Católica reforça tradição e universalidade por meio de grandes santuários, denominações evangélicas investem em impacto visual e presença midiática. Já os Santos dos Últimos Dias, por exemplo, operam com um padrão global de excelência arquitetônica e localização estratégica.
Essa convergência revela um ponto essencial: o turismo religioso no Brasil deixou de ser apenas devocional para se tornar também experiencial.
Diante disso, emerge uma reflexão inevitável: estamos assistindo a uma evolução natural das expressões de fé ou à incorporação plena das ferramentas de marketing ao universo religioso?
A resposta, possivelmente, reside no equilíbrio. O marketing, quando bem utilizado, não substitui a fé – mas amplia seu alcance, organiza sua presença e potencializa seu impacto.
Para entidades como a ADVB, o tema abre uma rica agenda de debates e pesquisas. Os megatemplos brasileiros representam um caso singular de integração entre propósito, marca e desenvolvimento econômico. São, em essência, plataformas vivas de relacionamento, nas quais espiritualidade e estratégia caminham lado a lado.
Compreender esse fenômeno é compreender uma das mais sofisticadas – e menos estudadas – engrenagens do marketing contemporâneo no Brasil.

Pedro Luiz Dias é vice-presidente da ADVB, teólogo, professor, partner na BTA Esports & Gaming Content, especialista em marketing e relações públicas e conselheiro deliberativo PREVI-GM
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Este texto nos remete a uma reflexão muito pertinente e a uma realidade atual.
O marketing pode atuar nestes ambientes religiosos de uma forma sutil e poderosa.
A perigrinação numerosa a estes templos enseja desenvolvimento local e regional.