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Seguro auto já não protege apenas veículos: protege mobilidade financeira

Por Jorge Eduardo de Souza, Diretor-Presidente da Única Seguros

Durante décadas, a percepção sobre seguro automóvel permaneceu relativamente estável no imaginário coletivo brasileiro. Para grande parte dos consumidores, a função do produto era bastante objetiva: proteger o veículo contra roubo, furto, colisões ou danos materiais.

Essa interpretação fez sentido durante muito tempo.

Mas a realidade mudou.

Hoje, o automóvel ocupa uma posição muito mais ampla na estrutura econômica e social das famílias. Ele deixou de ser apenas um bem patrimonial e passou a representar mobilidade, continuidade operacional, produtividade e, em muitos casos, estabilidade financeira.

Em outras palavras: a perda ou indisponibilidade de um veículo já não gera apenas prejuízo material.

Pode gerar interrupções importantes na dinâmica econômica da vida cotidiana.

E é justamente essa transformação que muda profundamente o papel do seguro automóvel.

A discussão deixou de ser apenas sobre proteger carros.

Passou a ser sobre proteger mobilidade financeira.

 

O automóvel deixou de representar apenas patrimônio

Historicamente, possuir um veículo simbolizava principalmente conforto e patrimônio.

Hoje, entretanto, sua função tornou-se mais complexa. Um automóvel pode representar simultaneamente uma ferramenta de trabalho; meio de geração de renda; estrutura logística familiar; instrumento de deslocamento profissional; suporte para atividades pessoais e elemento de continuidade operacional da rotina.

Essa mudança tornou-se ainda mais evidente após a transformação dos modelos de trabalho e da economia de serviços.

Motoristas por aplicativo, profissionais autônomos, representantes comerciais, pequenos empresários e trabalhadores híbridos passaram a depender diretamente da mobilidade para manter produtividade e renda.

Mesmo para famílias que não utilizam o veículo como fonte direta de receita, a dependência operacional tornou-se significativa.

Levar filhos à escola.

Deslocar-se ao trabalho.

Executar atividades do cotidiano.

Atender compromissos pessoais.

Resolver demandas emergenciais.

A ausência inesperada do veículo pode comprometer uma sequência inteira de atividades e o impacto financeiro frequentemente vai muito além do reparo mecânico.

 

O mercado mostra a relevância estratégica do seguro automóvel

Os números do setor segurador reforçam a importância desse segmento. O seguro automóvel continua sendo uma das principais categorias do mercado brasileiro.

Dados recentes da Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) indicam que o segmento de automóveis permanece entre os maiores ramos dos seguros de danos no país, representando parcela significativa das receitas do setor e mantendo crescimento consistente nos últimos anos.

A própria expansão do mercado revela uma mudança importante, o consumidor já não enxerga apenas o valor físico do automóvel. Passa gradualmente a compreender o valor funcional associado a ele.

Essa diferença parece pequena. Mas é estrutural.

 

O custo invisível de perder mobilidade

Quando pessoas avaliam risco automotivo, normalmente pensam em eventos tradicionais como roubo ou furto, colisão e danos materiais.

Embora esses eventos continuem relevantes, existe um componente frequentemente negligenciado: o custo indireto associado à interrupção da mobilidade. Em muitos casos, o maior prejuízo não está no veículo. Está nas consequências geradas por sua indisponibilidade( perda de produtividade, atraso profissional, custos adicionais de transporte, interrupção de atividades econômicas, impacto operacional familiar, e consequentemente, despesas emergenciais inesperadas.

Imagine um profissional autônomo que depende do veículo para atendimento de clientes. Ou uma família cuja rotina inteira foi construída em torno de deslocamentos específicos.

O problema deixa de ser patrimonial e passa a ser operacional.

 

A economia comportamental explica por que muitos consumidores ainda subestimam esse risco

Existe uma característica importante no comportamento humano, tendemos a avaliar riscos com base na frequência percebida e não necessariamente no impacto financeiro.

Em economia comportamental, esse fenômeno é frequentemente associado ao viés de otimismo.

A lógica costuma funcionar assim, “Nunca aconteceu comigo.”, “Dirijo há anos.”, “Sou cuidadoso.”, “Tenho experiência.”

Naturalmente, experiência reduz riscos. Mas não elimina a exposição.

Grande parte dos eventos automotivos relevantes ocorre por fatores externos. Terceiros; condições climáticas; infraestrutura viária;  fatores mecânicos;  situações imprevisíveis.

Isso significa que boa parte do risco está fora do controle individual. Mesmo assim, consumidores frequentemente assumem que possuem capacidade de controle maior do que realmente possuem.

 

O risco urbano tornou-se mais complexo

As cidades brasileiras tornaram-se mais densas e mais complexas. O crescimento populacional, a expansão urbana e o aumento da circulação produziram novas dinâmicas de exposição.

Entre os fatores contemporâneos destacam-se aumento do fluxo de veículos; maior concentração urbana; aumento do tempo médio de deslocamento; eventos climáticos extremos; maior incidência de danos causados por enchentes; crescimento de custos de reparação.

Além disso, veículos modernos passaram a incorporar tecnologias cada vez mais sofisticadas como sensores; câmeras; sistemas eletrônicos; assistentes digitais; conectividade embarcada.

Essa evolução aumentou conforto e segurança. Mas também elevou custos de reparo.

Pequenos danos que anteriormente exigiam intervenções simples podem hoje demandar substituições mais complexas.

O automóvel moderno carrega mais valor do que seu preço de mercado. Quando ocorre uma interrupção, o prejuízo frequentemente extrapola o valor de mercado do próprio bem.

 

O futuro do seguro automóvel será menos sobre carros e mais sobre ecossistemas

As transformações tecnológicas já começaram a alterar profundamente o setor.

Entre as tendências observadas são inteligência artificial aplicada à precificação; análise comportamental; telemetria;  veículos conectados;  monitoramento em tempo real;  personalização de coberturas.

O modelo tradicional baseado exclusivamente em indenização tende a evoluir.

A lógica migrará progressivamente de reparação para prevenção. De produto para experiência. E de ativo para maior mobilidade.

Esse movimento acompanha uma mudança mais ampla do comportamento do consumidor contemporâneo.

Durante décadas, o seguro automóvel foi entendido como proteção patrimonial. Hoje essa definição tornou-se insuficiente.

Automóveis representam muito mais do que bens materiais. Nesse contexto, proteger um veículo já não significa apenas proteger um patrimônio físico.

Significa proteger a capacidade de continuar seguindo em movimento.

Porque, no fim, talvez a pergunta mais importante não seja:

“Quanto vale um automóvel?”

Mas: “Quanto custa interromper a vida que ele sustenta?”

 

 

Jorge Eduardo de Souza é Diretor-Presidente da Única Seguros, especialista em gestão de riscos e proteção patrimonial, com certificação internacional pela AIRM. Atua em entidades como ABGR, ANSP e SINCOR-SP, contribuindo para o avanço técnico do setor de seguros no Brasil. Professor e palestrante, tem atuação destacada na formação executiva em seguros, riscos e benefícios corporativos.

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