A digitalização do dinheiro tornou-se um dos temas mais relevantes do debate econômico contemporâneo.
Nesse contexto, Pix e moedas digitais ocupam espaço crescente nas discussões sobre inovação financeira conduzidas pelos bancos centrais. Para compreender os impactos dessas transformações, é importante entender como o Pix e os projetos de moeda digital vêm evoluindo no Brasil e no mundo. O Pix foi criado pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2020 e revolucionou os pagamentos eletrônicos ao permitir transferências instantâneas, 24 horas por dia, de forma simples e, para pessoas físicas, geralmente gratuita.
Em poucos anos, tornou-se o meio de pagamento mais utilizado no Brasil, superando cartões, boletos e TED’ s, graças à rapidez e facilidade de uso.
Segundo levantamento da Let’ s Money sobre o mercado brasileiro de pagamentos em 2025, o Pix respondeu por 54,7% das transações, seguido pelos cartões (30,4%), boletos (7,6%), TED e modalidades semelhantes (cerca de 7%) e cheques (1%).
O estudo da Bain & Company, divulgado pela Let’ s Money em junho de 2026, analisou o mercado brasileiro de pagamentos e concluiu que os meios eletrônicos já representavam cerca de 85% do mercado endereçável brasileiro em 2025, com projeções de alcançar 91% em 2026 e 96% em 2028.
No cenário internacional, o Pix é considerado um dos sistemas de pagamento instantâneo mais bem-sucedidos do mundo. Seu modelo vem sendo estudado por diversos países e já inspira iniciativas semelhantes em várias regiões do mundo. Os Estados Unidos, por exemplo, já implantaram em 2023 um sistema semelhante, o chamado FedNow. O Pix é um sistema de pagamentos instantâneos amplamente acessível ao público final, enquanto o FedNow é uma infraestrutura de liquidação instantânea operada pelo Federal Reserve para instituições financeiras.
Sobre a moeda digital, o Brasil está entre os países mais avançados no desenvolvimento da moeda digital, a chamada CBDC ou Central Bank Digital
Currency. O Drex é a plataforma de infraestrutura digital desenvolvida pelo Banco Central para viabilizar a versão tokenizada do Real e outros ativos digitais. No mundo, apenas alguns países já lançaram CBDC’ s em escala nacional ou piloto avançado.
China, Índia, União Europeia, Reino Unido e Brasil figuram entre os principais projetos em desenvolvimento e implementação.
Em linhas gerais, a moeda digital oficial de um país será emitida e garantida pelo banco central. Diferentemente das criptomoedas, como o Bitcoin, a CBDC, no caso brasileiro denominada Drex, será emitida pelo Banco Central e possuirá o mesmo valor da moeda física correspondente.
O Pix já representa um importante passo no processo de digitalização financeira e, dessa forma, suscita debates relacionados à privacidade financeira e ao equilíbrio entre inovação tecnológica e liberdade individual, especialmente quando associadas aos avanços da inteligência artificial e da análise massiva de dados. Essas ferramentas de pagamento e de moeda podem ampliar significativamente a capacidade de monitoramento das transações financeiras dos cidadãos, caso não existam mecanismos adequados de proteção à privacidade e às liberdades individuais.
A resistência às CBDC’ s (moedas digitais de bancos centrais) não ocorre tanto por questões tecnológicas, mas principalmente por preocupações relacionadas à liberdade individual, privacidade, segurança e ao papel do Estado na economia.
Muitos manifestam preocupação de que o governo possa acompanhar todas as transações realizadas pelos cidadãos, já que uma moeda digital oficial deixa registros eletrônicos e, se cada pagamento ficar registrado, quem terá acesso a essas informações?
Entre as preocupações frequentemente levantadas por críticos das CBDC’ s está a possibilidade teórica de que elas possam permitir bloqueio de contas, limitações de gastos em determinadas categorias de consumo, além de restrições a grupos ou indivíduos.
Embora a maioria dos projetos atuais não preveja tais mecanismos, o simples fato de a tecnologia permitir esse tipo de controle gera preocupação, sem falar dos riscos de sistemas totalmente digitais poderem sofrer ataques de hackers, além de falhas técnicas e interrupções de energia ou das telecomunicações.
Quanto maior a dependência digital, maior a preocupação com a resiliência do sistema. Alguns especialistas alertam que determinados modelos de CBDC poderiam levar parte dos recursos atualmente depositados nos bancos comerciais para estruturas vinculadas ao banco central, afetando a intermediação financeira e a concessão de crédito.
Nem todos possuem smartphone, acesso confiável à internet ou familiaridade com as tecnologias digitais. Idosos e populações vulneráveis, em especial, podem enfrentar dificuldades de adaptação às novas tecnologias.
Aqueles que defendem o papel-moeda argumentam que ele oferece privacidade, autonomia e independência tecnológica. Por isso, vários países afirmam que a moeda digital não substituirá totalmente o dinheiro físico.
Os defensores das CBDC’ s argumentam que os benefícios seriam a redução de custos financeiros, o combate a fraudes, a facilitação de contratos inteligentes e a inclusão financeira.
No Brasil, o projeto Drex tem suscitado debates semelhantes. O Banco Central do Brasil afirma que o objetivo não é substituir o dinheiro nem o Pix, mas criar uma infraestrutura para ativos digitais e transações financeiras mais sofisticadas. As discussões sobre privacidade e segurança continuam entre os temas centrais do desenvolvimento do sistema.
Outro benefício frequentemente apontado é a possibilidade de tokenização de ativos, permitindo negociações mais rápidas, seguras e com menor custo de imóveis, títulos e outros bens digitais.
O avanço do Pix, do Drex e das demais formas de digitalização financeira representa uma transformação comparável às grandes revoluções tecnológicas das últimas décadas. O desafio não consiste apenas em desenvolver sistemas eficientes, mas em garantir que a inovação esteja sempre acompanhada da proteção da privacidade, da liberdade econômica e da dignidade da pessoa humana. Mais do que nunca, a sociedade precisa debater esses temas em todos os fóruns para assegurar que a moeda digital, bem como a inteligência artificial, permaneçam subordinadas ao bem comum e ao respeito integral à dignidade humana. O progresso tecnológico deve permanecer a serviço do ser humano e do bem comum, jamais o contrário.
A história demonstra que toda grande inovação tecnológica produz benefícios e desafios. O futuro do dinheiro dependerá não apenas da eficiência dos sistemas digitais, mas também da capacidade das sociedades de preservar a liberdade, a privacidade e a centralidade da pessoa humana diante das transformações tecnológicas.

Roberto Vertamatti é Vice-presidente de Economia da ADVB, Conselheiro da ANEFAC, PhD em Administração pela FCU – Florida Christian University
Referências:
Banco Central do Brasil. Pix. Disponível em: www.bcb.gov.br.
Banco Central do Brasil. Drex – Real Digital. Disponível em: www.bcb.gov.br.
Bank for International Settlements (BIS). Central Bank Digital Currencies: Progress Report.
Basel, 2025.
Federal Reserve System. FedNow Service. Disponível em: www.federalreserve.gov.
Let’ s Money. Relatório do Mercado Brasileiro de Meios de Pagamento 2025.
Let’s Money. Bain & Company: Pagamentos Digitais e Saturação do Mercado Brasileiro.
Junho de 2026.
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