Um paradoxo brasileiro que desafia consciência pública, ciências médicas e lideranças
Vivemos, no Brasil, um dos mais inquietantes paradoxos da contemporaneidade: ainda não fomos capazes de erradicar (totalmente) a fome – que persiste, silenciosa e renitente em diversas regiões do país – e já enfrentamos, com igual gravidade, o avanço acelerado da obesidade. Ainda que dados dos relatórios da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), reportem que houve redução na subnutrição para menos de 2,5% da população. [1]
Este artigo se insere deliberadamente no contexto brasileiro, onde desigualdades históricas, transformações no padrão alimentar e desafios estruturais criam uma realidade própria, que exige análise, sensibilidade e ação coordenada.
Dois eventos recentes reforçaram essa reflexão. A inspiradora palestra da Sra. Geyze Diniz, fundadora da OSCIP Brasil Contra a Fome, (https://pactocontrafome.org) no encontro do grupo Conselheiras, sob a liderança da Dra. Sandra Comodaro, (comunicacao@grupoconselheiras.com.br), na Arena B3, no dia 26 de março, e as preocupantes informações na “live” promovida pela ABESO – Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (www.abeso.org), no dia internacional da Obesidade, que citando dados do governo brasileiro [2] trouxeram à tona evidências científicas, relatos e análises que convergem para um mesmo ponto: estamos diante de um problema sistêmico, complexo e urgente – com características muito particulares no Brasil.
O Paradoxo da Abundância e da Escassez no Brasil
A fome, em nosso país, não desapareceu totalmente, como já frisei acima. Mas, ainda assim, ela se manifesta de forma desigual entre regiões, classes sociais e territórios – das áreas rurais mais vulneráveis às periferias urbanas densamente povoadas.
Ao mesmo tempo, a obesidade (e o sobrepeso na esteira) cresce de maneira consistente, impulsionada não apenas pelo excesso, mas pela qualidade inadequada da alimentação, marcada pelo consumo crescente de produtos ultraprocessados, pela falta de acesso a alimentos saudáveis (frutas, por exemplo) e por lacunas na educação nutricional.
Não se trata, portanto, de excesso versus falta.
No Brasil, trata-se de desigualdade estrutural, acesso e informação.
Ciências médicas, Consciência pública e Responsabilidade no Contexto Nacional
As contribuições apresentadas nos eventos são claras:
- A ciência brasileira e internacional já oferece caminhos consistentes para enfrentar tanto a fome quanto a obesidade.
- Priorizar a educação nutricional desde a infância.
- Importante transição nutricional que houve no Brasil nos últimos 20 anos, que passou de desnutrição para excesso de peso
- Reforçar políticas públicas com foco em educação nutricional
- Estimular campanhas, de marketing de alimentos para público infantil, com consistentes orientações científicas.
- Orientar para maior consumo de alimentos in natura (frutas, hortaliças e grãos).
No entanto, o desafio no Brasil está na implementação em larga escala, na continuidade de políticas públicas e na articulação entre setores.
É nesse ponto que emerge o papel relevante de instituições como a ADVB (www.advb.org.br).
Ao assumir uma postura ativa nos grandes debates de interesse público, a entidade reafirma que o marketing – quando responsável – deve estar alinhado com a realidade científica, social e econômica do país, bem como, com soluções baseadas em evidências.
O marketing responsável, no Brasil de hoje, é aquele que antecipa seus postulados e:
- respeita a diversidade socioeconômica;
- valoriza a informação científica comprovada;
- dialoga com as ciências médicas (de pediatria a geriatria)
- e contribui para escolhas mais conscientes e acessíveis.
O Papel das Lideranças no Brasil
A nova gestão da ADVB sinaliza um posicionamento claro: no Brasil, lideranças empresariais e institucionais não podem se omitir diante de temas estruturais como educação alimentar, saúde e insegurança alimentar.
Entre a fome e a obesidade (e sobrepeso), há uma agenda nacional que precisa priorizar:
- compromisso público efetivo;
- visão de longo prazo;
- integração entre iniciativa privada, academia e setor público.
Mais do que nunca, comunicar bem, no Brasil, é também educar, orientar e gerar impacto social positivo.
Uma Reflexão Necessária
Ainda não resolvemos o problema da fome no Brasil.
E já estamos diante de outro – igualmente desafiador e crescente.
Essa constatação, no contexto brasileiro, não deve gerar paralisia, mas mobilização.
Porque, no fundo, não estamos falando apenas de alimentação.
Estamos falando de dignidade, saúde pública e futuro nacional.
Conclusão: Um Desafio Brasileiro, Uma Resposta Coletiva
O paradoxo entre fome e obesidade, no Brasil, não é apenas estatístico – é social, econômico e ético.
Ele nos convida a uma pergunta essencial: que país queremos construir (ou, que estamos construindo) – e qual o papel de cada liderança nessa construção?
A resposta, inevitavelmente, apela pela capacidade de unir conhecimentos, responsabilidades e ações concretas – com um olhar atento às especificidades brasileiras.
Pedro Luiz Dias é vice-presidente da ADVB, teólogo, professor, partner na BTA Esports & Gaming Content, especialista em marketing e relações públicas e conselheiro deliberativo PREVI-GM
[1] https://www.fao.org/brasil/noticias/detail-events/en/c/1741586/, acesso em 29 de março de 2026.
[2] https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/vigitel/vigitel-brasil-2006-2024.pdf, páginas: 40-42 e tabelas, acesso em 29 de março de 2026.
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