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Brasil: As Esperanças Frustradas e o Futuro Ameaçado

Por Roberto Vertamatti, vp de Economia da ADVB

O Brasil chega a um momento decisivo de sua história. As perspectivas que se apresentam após o resultado das eleições presidenciais são motivo de profunda preocupação, especialmente quando analisamos os desafios econômicos, institucionais e sociais que o País precisa enfrentar. Justamente quando deveríamos avançar na responsabilidade fiscal, na eficiência do Estado e no fortalecimento das instituições, corremos o risco de aprofundar problemas que há décadas comprometem nosso desenvolvimento.

Em meu artigo Um Novo Congresso Confirma as Esperanças do Povo, destaquei a expectativa de que a nova composição do Congresso pudesse contribuir para corrigir os problemas estruturais do País. Entretanto, diante do novo cenário, temo que essas esperanças sejam frustradas e que o Brasil perca mais uma oportunidade de avançar em direção ao desenvolvimento sustentável.

Minha preocupação não se limita à disputa política. O que está em jogo é a capacidade de o País criar condições para crescer, gerar empregos, melhorar a renda das famílias e oferecer um futuro melhor às próximas gerações. Um governo que não planeja adequadamente, não administra com eficiência e não estabelece prioridades claras pode comprometer anos de desenvolvimento e desperdiçar oportunidades que dificilmente serão recuperadas no curto e talvez no longo prazo.

A credibilidade do Brasil em risco

A credibilidade de um país é um dos fatores fundamentais para seu desenvolvimento econômico. Investidores nacionais e estrangeiros precisam confiar na estabilidade das regras, na responsabilidade das decisões governamentais e na capacidade de o Estado cumprir seus compromissos.

Quando um governo transmite sinais de descontrole fiscal, amplia despesas sem demonstrar como serão financiadas e não apresenta um planejamento consistente para o futuro, a desconfiança aumenta. Como consequência, o País pode enfrentar mais inflação, juros mais elevados, dificuldades para atrair investimentos e menor disponibilidade de recursos para financiar a atividade produtiva.

O capital não tem compromisso ideológico com governos. Procura segurança, rentabilidade e previsibilidade. Quando essas condições não são encontradas, os investimentos podem ser adiados ou direcionados para países que ofereçam um ambiente mais favorável.

O Brasil possui recursos naturais, um agronegócio competitivo e dos melhores do mundo, um mercado consumidor expressivo e capacidade empresarial. Entretanto, essas vantagens não são suficientes para garantir o crescimento. Precisamos de políticas econômicas consistentes, estabilidade institucional e condições que estimulem a produtividade e a geração de riqueza.

Responsabilidade fiscal: uma obrigação, não uma opção

A responsabilidade fiscal deve ser tratada como uma obrigação permanente de qualquer governo, independentemente de sua orientação política. Não se pode gastar continuamente mais do que a capacidade de financiamento do Estado permite, transferindo a conta para os contribuintes e para as próximas gerações.

O crescimento da dívida pública reduz a capacidade de investimento do Estado e compromete o espaço disponível para atender às necessidades da população. Precisamos, portanto, enfrentar o desequilíbrio das contas públicas com medidas consistentes, em vez de adiar decisões e transferir os custos para as próximas gerações.

É importante deixar claro que responsabilidade fiscal não significa abandonar os mais pobres ou ignorar as necessidades sociais. Significa utilizar os recursos públicos com critérios, prioridades e resultados. O dinheiro arrecadado pertence à sociedade e deve ser aplicado com transparência e eficiência.

Antes de propor novos impostos ou ampliar a carga tributária, o governo deveria demonstrar que está combatendo desperdícios, revendo despesas desnecessárias e avaliando a efetividade dos programas públicos. Afinal, como justificar uma arrecadação cada vez maior quando a administração não consegue demonstrar resultados proporcionais aos recursos que recebe?

O tamanho e a eficiência do Estado

O Brasil precisa discutir não apenas quanto o Estado arrecada e gasta, mas também como administra os recursos disponíveis. Uma administração pública excessivamente complexa e burocrática consome recursos, dificulta a execução de políticas públicas e reduz a capacidade de resposta às necessidades da população.

Não se trata de defender a ausência do Estado, mas de exigir que ele cumpra adequadamente suas funções essenciais. Saúde, educação, segurança, infraestrutura e justiça precisam de recursos e de uma gestão competente. Para isso, é necessário eliminar desperdícios, simplificar procedimentos, modernizar os serviços e avaliar os resultados alcançados.

A tecnologia e a inteligência artificial oferecem oportunidades importantes para melhorar a produtividade da administração pública, reduzir custos e agilizar serviços. Entretanto, essas ferramentas somente produzirão resultados se forem acompanhadas de planejamento, metas claras e responsabilidade dos gestores.

Um Estado maior não é necessariamente um Estado melhor. O que a sociedade precisa é de um governo capaz de entregar serviços de qualidade, respeitar o contribuinte e utilizar os recursos públicos de forma responsável.

Impostos, burocracia e ambiente de negócios

A complexidade tributária brasileira representa um grande obstáculo ao desenvolvimento. Empresas precisam dedicar tempo, dinheiro e profissionais especializados para cumprir obrigações fiscais, interpretar regras e enfrentar mudanças frequentes na legislação. Esses custos reduzem a competitividade e dificultam os investimentos, especialmente para os pequenos e médios negócios.

As famílias também sentem os efeitos da elevada carga tributária, que se reflete no preço de produtos e serviços e compromete o poder de compra. Quando o custo de vida aumenta e a renda não acompanha essa evolução, o consumo perde força e a população encontra mais dificuldades para melhorar suas condições de vida.

A simplificação tributária é necessária, mas deve vir acompanhada de uma revisão responsável dos gastos públicos. A redução sustentável da carga tributária depende de uma administração mais eficiente e de um equilíbrio fiscal que não provoque novos desequilíbrios no futuro.

O setor privado é essencial para o desenvolvimento nacional. Para investir, inovar e gerar empregos, as empresas precisam de regras estáveis, segurança jurídica e liberdade para empreender. O governo deveria criar condições favoráveis à atividade produtiva, em vez de transferir continuamente ao contribuinte os custos de uma administração ineficiente.

O Brasil precisa valorizar quem produz, investe, exporta e gera empregos. Sem um ambiente de negócios favorável, dificilmente conseguiremos alcançar o crescimento econômico de que o País necessita.

Segurança pública e educação: condições para prosperar

Não existe desenvolvimento sustentável sem segurança pública. A expansão do crime organizado, os elevados índices de violência e a insegurança em diversas regiões afetam diretamente a vida dos cidadãos, aumentam os custos das empresas e desestimulam fortemente investimentos.

O enfrentamento desse problema exige planejamento, integração entre os governos federal, estaduais e municipais, inteligência policial, fiscalização eficiente e combate efetivo às organizações criminosas. A população tem direito de viver e trabalhar com segurança, e o Estado deve efetivamente demonstrar capacidade de cumprir essa obrigação.

A educação é igualmente fundamental. O Brasil precisa melhorar a qualidade do ensino, reduzir a evasão escolar e ampliar a formação técnica e profissional, preparando os jovens para as transformações do mercado de trabalho e para as novas exigências tecnológicas.

Educar não significa apenas transmitir conhecimentos. Significa também desenvolver o raciocínio, a responsabilidade, a capacidade de trabalhar e a autonomia necessária para que cada cidadão possa construir seu próprio futuro.

Segurança e educação não devem ser tratadas apenas como despesas orçamentárias. São investimentos essenciais para elevar a produtividade, reduzir desigualdades, ampliar oportunidades e fortalecer a sociedade. O problema é que, ressalto aqui, sem planejamento e avaliação de resultados, mesmo os recursos elevados podem não produzir os benefícios esperados.

Corrupção, instituições e limites ao poder

Em meu artigo O Perigo do Poder Sem Limites, destaquei os riscos da concentração de poder e da perda de confiança nas instituições. Essa preocupação também tem consequências econômicas: investidores precisam confiar na Justiça, no respeito aos contratos e na aplicação imparcial das leis.

A corrupção e a falta de transparência comprometem os recursos públicos, distorcem a concorrência e enfraquecem a confiança da sociedade. Denúncias precisam ser apuradas com independência e, comprovadas as irregularidades, os responsáveis devem responder dentro da lei.

Nesse cenário, o novo Congresso terá uma responsabilidade decisiva: fiscalizar efetivamente o Executivo, defender o equilíbrio entre os Poderes e exigir transparência, responsabilidade e resultados concretos na gestão pública. O respeito à Constituição e a existência de controles efetivos são condições indispensáveis para uma democracia saudável e um ambiente econômico confiável.

O Brasil não pode desperdiçar seu futuro

Minha preocupação é que o resultado eleitoral represente o agravamento de problemas que já deveriam estar sendo enfrentados. Se persistirem a irresponsabilidade fiscal, a ineficiência administrativa, a insegurança jurídica e a falta de compromisso com reformas estruturais, poderemos comprometer ainda mais nossas perspectivas de crescimento. Políticas assistenciais que não sejam acompanhadas de medidas que estimulem a educação, a qualificação profissional e a autonomia econômica irão dificultar a superação da pobreza.

Não se trata de afirmar que todos os problemas brasileiros começaram agora. Muitos se acumularam ao longo de décadas e exigem soluções estruturais. Entretanto, a continuidade de erros conhecidos, a falta de planejamento e a ausência de compromisso com resultados podem agravar ainda mais a situação.

O novo Congresso terá um papel fundamental nesse processo. Cabe aos parlamentares fiscalizar o governo, avaliar as propostas apresentadas e defender medidas que contribuam para a estabilidade econômica, o fortalecimento das instituições e a melhoria das condições de vida da população. A sociedade, por sua vez, não pode se limitar ao voto: precisa acompanhar as decisões dos seus representantes e cobrar coerência entre as promessas e as ações.

Precisamos de menos desperdício, mais eficiência, menos burocracia e mais empreendedorismo. Precisamos de políticas sociais que ofereçam oportunidades e favoreçam a autonomia econômica, e não de medidas que, sem enfrentar as causas da pobreza, perpetuem a dependência. Precisamos, sobretudo, de governantes comprometidos com o interesse público, e não com projetos de poder.

O preço da irresponsabilidade é pago pelos trabalhadores, pelas famílias, pelas empresas e pelos jovens que encontram menos oportunidades para construir seu futuro. Quando a economia perde dinamismo, os investimentos diminuem e a renda deixa de crescer, toda a sociedade sofre as consequências.

A credibilidade de um país leva anos para ser construída e pode ser destruída em pouco tempo. Sua recuperação exige governantes competentes, responsabilidade nas decisões e compromisso efetivo com o interesse público.

O Brasil não está condenado ao fracasso. Possui recursos, capacidade empresarial e potencial para crescer muito mais. Entretanto, não poderá alcançar esse objetivo enquanto adiar as reformas necessárias e transferir para as próximas gerações o custo de decisões irresponsáveis.

O futuro do Brasil depende das escolhas que fazemos hoje. Não podemos continuar adiando decisões, tolerando desperdícios e transferindo às próximas gerações a conta da irresponsabilidade de nossos governantes.

O BRASIL NÃO CARECE DE POTENCIAL; CARECE DE GOVERNANTES À ALTURA DE SEU POTENCIAL. E QUANDO FALTA RESPONSABILIDADE A QUEM GOVERNA, É O POVO BRASILEIRO QUE PAGA A CONTA!

 

 

Roberto Vertamatti é Vice-presidente de Economia da ADVB, Conselheiro da ANEFAC, PhD em Administração pela FCU – Florida Christian University

 

 

Referências

  1. VERTAMATTI, Roberto. Um Novo Congresso Confirma as Esperanças do Povo. 7 de outubro de 2026.
  2. VERTAMATTI, Roberto. O Perigo do Poder Sem Limites. 21 de setembro de 2026.
  3. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm
  4. TESOURO NACIONAL. Tesouro Transparente — dados e informações fiscais. Disponível em: https://www.tesourotransparente.gov.br/

 

 

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