As eleições presidenciais de 2018, 2022 e 2026 permitem analisar a participação do eleitorado, a rejeição aos candidatos e a confiança nas instituições. Quando examinamos esses números à luz dos escândalos políticos e financeiros, surgem questionamentos que precisam ser enfrentados com transparência e responsabilidade.
1 – O eleitorado e os votos que não se transformam em apoio a candidatos
Em 2022, as abstenções foram de aproximadamente 20,95% no primeiro turno e 20,59% no segundo. Em 2018, ultrapassaram 21% no segundo turno. Em 2026, a abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,22% no segundo, conforme os resultados divulgados pelo TSE.
Estamos falando de dezenas de milhões de brasileiros que deixam de comparecer às urnas. Somados aos votos brancos e nulos, esses números mostram que uma parcela expressiva do eleitorado não escolhe nenhum dos candidatos. É importante ressalvar, entretanto, que ausência, voto branco e voto nulo têm significados diferentes e não representam necessariamente rejeição política.
2 – A rejeição dos candidatos
Utilizando como referência o instituto Paraná Pesquisas, levantamentos divulgados em outubro de 2018 apontaram rejeição de 54,5% para Fernando Haddad e 39,4% para Jair Bolsonaro. Em outubro de 2022, Lula registrava 45,4% e Bolsonaro, 49,3%. Em janeiro de 2026, Lula aparecia com 45,3% e Flávio Bolsonaro, com 44,7%. São pesquisas de momentos distintos, não uma série perfeitamente comparável entre todos os turnos.
Esses números demonstram a força da rejeição na política brasileira. Muitos eleitores votam não apenas por identificação com um candidato, mas também para impedir a vitória de seu adversário. A rejeição declarada em pesquisas, entretanto, não equivale necessariamente ao comportamento efetivo nas urnas.
3 – Os escândalos e a responsabilidade do governo
Não podemos analisar a trajetória do PT sem mencionar o Mensalão, que resultou em condenações no Supremo Tribunal Federal, e os escândalos relacionados à Petrobras investigados pela Operação Lava Jato. Esses episódios comprometeram a confiança de muitos brasileiros na política e reforçaram a cobrança por ética e responsabilidade no uso do dinheiro público.
Mais recentemente, dois casos exigem atenção especial.
O primeiro é o esquema de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS. Em abril de 2025, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram a Operação Sem Desconto. A estimativa inicial apontou cerca de R$ 6,3 bilhões em descontos realizados por entidades investigadas entre 2019 e 2024. O caso expôs a vulnerabilidade de milhões de beneficiários e levantou questões graves sobre fiscalização, controles internos e responsabilidade dos gestores públicos. É preciso apurar quem organizou o esquema, quem se beneficiou e quem falhou em impedir sua continuidade. As investigações também devem esclarecer eventuais responsabilidades de agentes públicos e autoridades, sem excluir ninguém da apuração.
O segundo é o caso Banco Master, que ganhou dimensão nacional após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial da instituição, em novembro de 2025. A decisão foi motivada pela grave crise de liquidez, pelo comprometimento da situação econômico-financeira e por violações às normas do sistema financeiro. O caso também levantou questionamentos sobre operações envolvendo o Banco de Brasília (BRB), suspeitas de irregularidades e possíveis relações entre os envolvidos e agentes públicos.
É fundamental esclarecer as responsabilidades individuais e institucionais, sem transformar suspeitas em condenações antecipadas. Mas a gravidade dos fatos exige investigações independentes, transparência e responsabilização de todos os envolvidos.
4 – O sistema eleitoral e a necessidade de conferência independente
O Brasil utiliza urnas eletrônicas sem produzir uma cédula individual impressa que permita ao eleitor conferir fisicamente seu voto e que sirva de base para uma recontagem independente de todos os votos.
A Justiça Eleitoral informa que dispõe de mecanismos de auditoria, como a verificação dos códigos-fonte, os testes de integridade, as assinaturas digitais e os boletins de urna. No entanto, a questão é saber se os mecanismos disponíveis oferecem verificabilidade independente suficiente para assegurar a confiança de toda a sociedade.
A existência de mecanismos de auditoria é importante, mas permanece legítimo discutir se eles permitem uma verificação independente, abrangente e compreensível dos resultados por partidos, especialistas e sociedade civil.
O sistema eleitoral deve permitir uma conferência independente, transparente e compreensível, preservando rigorosamente o sigilo do voto. Defendo a adoção de um registro físico do voto, verificável pelo eleitor e protegido pelo sigilo, cuja implantação considero necessária e urgente. Não se trata de afirmar que houve fraude comprovada, mas de buscar garantias adicionais que fortaleçam a credibilidade do processo.
5 – Conclusão
A combinação de elevada rejeição política, milhões de abstenções, escândalos de corrupção e falhas graves de fiscalização constitui motivo legítimo para exigir mais transparência dos governantes e das instituições.
Diante desse quadro, é legítimo questionar se os mecanismos atuais oferecem garantias suficientes e exigir auditorias independentes, transparentes e verificáveis. A existência de escândalos, a rejeição aos candidatos e as limitações do sistema de votação não comprovam, isoladamente, fraude eleitoral, mas reforçam a importância de aprimorar os mecanismos de fiscalização.
A democracia não pode depender de confiança cega, nem de suspeitas sem comprovação. O Brasil precisa de eleições cuja legitimidade não seja apenas proclamada, mas demonstrada por transparência, auditoria independente e mecanismos que permitam verificar, com segurança, que a vontade do eleitor foi respeitada.
DADOS ELEITORAIS: PARTICIPAÇÃO, VOTOS VÁLIDOS E ABSTENÇÕES — 2018 a 2026
1 – Eleições presidenciais do Brasil — 2026: comparativo do 1º e do 2º turno
O quadro abaixo apresenta os votos válidos, as abstenções, os votos nulos e os votos em branco nas eleições para presidente da República de 2026, realizadas em 4 e 25 de outubro. Os dados divulgados após a apuração permitem comparar a participação dos eleitores nos dois turnos.

Observação: os dados publicados acima apresentam pequena divergência de 423 eleitores entre o total informado de eleitores aptos e a soma do comparecimento com as ausências. O total de eleitores aptos acima reproduz o número divulgado para 2026; a divergência precisa ser conferida na base oficial de totalização.
2 – Principais diferenças entre os turnos
- Votos válidos: aumento de 4.781.485.
- Ausências: redução de 2.960.239.
- Votos em branco: redução de 870.302.
- Votos nulos: redução de 950.944.
- Brancos e nulos somados: redução de 1.821.246.
Observação importante: votos válidos são os votos destinados aos candidatos. Brancos e nulos não são computados como votos válidos. As ausências, por sua vez, representam eleitores que não compareceram às urnas.
3 – Eleições presidenciais de 2018, 2022 e 2026: quadro comparativo
A comparação considera os percentuais de cada categoria sobre o total de eleitores aptos a votar. Assim, fica mais evidente a dimensão dos votos válidos, dos votos em branco e nulos e das abstenções em relação a todo o eleitorado brasileiro.
Os dados históricos de 2018 e 2022 foram publicados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Para 2026, foram consultados os resultados divulgados após as eleições de outubro.
4 – Eleitores aptos e percentuais por turno
Percentuais calculados sobre o eleitorado apto informado para cada ano. Os valores podem não totalizar exatamente 100% devido a diferenças de totalização e arredondamentos. Os números de 2026 devem ser conferidos conjuntamente com os totais absolutos antes da publicação definitiva.
5 – Quantidade de votos e ausências

6 – O que os números evidenciam
- 2018: os votos nulos cresceram de 4,89% para 5,84% do eleitorado apto entre os turnos, enquanto as abstenções passaram de 20,33% para 21,30%.
- 2022: os votos válidos representaram aproximadamente 75,6% do eleitorado nos dois turnos. A abstenção caiu ligeiramente no segundo turno.
- 2026: a participação foi maior no segundo turno, com redução da abstenção de 21,08% para 19,22%. Também houve queda dos votos em branco e nulos em relação ao eleitorado apto.
Obs.: dados publicados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). As divergências de totalização identificadas devem ser conferidas na base oficial antes da publicação definitiva.
Roberto Vertamatti é Vice-presidente de Economia da ADVB, Conselheiro da ANEFAC, PhD em Administração pela FCU – Florida Christian University
REFERÊNCIAS
- Dados oficiais das eleições — 2018, 2022 e 2026
– Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Portal das Eleições 2026 — resultados, boletins de urna e informações sobre o processo eleitoral. Consultar o portal das Eleições 2026.
– Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dados Abertos — resultados e boletins de urna das Eleições 2026. Consultar a base de dados eleitorais.
– Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Resultados oficiais das eleições anteriores. Portal oficial do TSE. Para 2018 e 2022, consultar os resultados por ano e turno.
– Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Terminada a votação, saiba como acompanhar os resultados das eleições”. Orientações sobre totalização, boletins de urna e conferência dos resultados. Consultar a publicação.
- Pesquisas eleitorais e rejeição dos candidatos
– Paraná Pesquisas / UOL / Reuters. “Bolsonaro tem 60,6% contra 39,4% de Haddad nos votos válidos, segundo Paraná Pesquisas”. Publicação de 26 de outubro de 2018, com dados de rejeição dos candidatos. Consultar a pesquisa de 2018.
– Paraná Pesquisas / CNN Brasil. “Paraná Pesquisas: rejeição de Lula é de 45,3% e de Flávio, 44,7%”. Publicação de 30 de janeiro de 2026. Consultar a pesquisa de 2026.
- Escândalos políticos e financeiros
– Supremo Tribunal Federal (STF). Informações sobre a Ação Penal 470, referente ao caso conhecido como Mensalão. Portal oficial do STF.
– Ministério Público Federal (MPF). Informações institucionais sobre a Operação Lava Jato e as investigações relacionadas à Petrobras. Portal oficial do MPF.
– Agência Brasil. “INSS: PF e CGU investigam descontos não autorizados de pensionistas”. Publicação de 27 de maio de 2026, com informações sobre a Operação Sem Desconto e a estimativa de R$ 6,3 bilhões em descontos investigados entre 2019 e 2024. Consultar a reportagem.
– Banco Central do Brasil. “Banco Central decreta liquidação extrajudicial do Banco Master”. Comunicado de 18 de novembro de 2025. Consultar o comunicado oficial.
- Auditoria e transparência do sistema eleitoral
– Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Informações sobre boletins de urna, registro digital do voto, testes de integridade e mecanismos de auditoria. Consultar as informações oficiais.
As ideias e opiniões expressas nos artigos são de exclusiva responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, o posicionamento da ADVB. Para publicar um artigo ou matéria no Portal ADVB, envie o material para o e-mail redacao@advb.org, sujeito à aprovação editorial.




















