HomeOPINIÃOE se você pudesse votar em uma IA para Presidente da República?

E se você pudesse votar em uma IA para Presidente da República?

Por Leandro Monteiro, vice-presidente da ADVB

Imagine que, na próxima eleição, além dos candidatos tradicionais, o Brasil pudesse escolher uma inteligência artificial para liderar o país. Não uma máquina vestida de presidente, nem uma fantasia de ficção científica em que computadores substituem pessoas e eleições. A pergunta é mais profunda: e se o país fosse conduzido por uma inteligência capaz de compreender, em tempo real, uma quantidade de informações que nenhum ser humano, por mais preparado que fosse, conseguiria acompanhar sozinho?

O Brasil é uma máquina de enorme complexidade. Todos os dias, decisões tomadas em Brasília repercutem em hospitais, escolas, estradas, delegacias, empresas, campos, periferias e pequenas cidades que raramente aparecem no debate nacional. São orçamentos, obras, filas, políticas sociais, programas educacionais, investimentos, impostos, empregos e emergências que precisam ser administrados ao mesmo tempo. No entanto, boa parte dessas decisões ainda depende de informações fragmentadas, sistemas que não conversam entre si, relatórios que chegam tarde e interpretações muitas vezes contaminadas por urgências políticas ou interesses de curto prazo.

Uma inteligência artificial não resolveria magicamente os problemas do Brasil. Mas poderia mudar a qualidade da pergunta antes de cada decisão. Em vez de decidir apenas com base em discursos, pressões e percepções parciais, o governo poderia trabalhar com cenários, evidências, probabilidades e impactos projetados. Antes de cortar um orçamento, seria possível visualizar quem seria afetado. Antes de lançar um programa, seria possível comparar experiências, estimar custos, identificar riscos e acompanhar resultados desde o primeiro dia. Antes de anunciar uma obra, seria possível entender se ela realmente resolve uma necessidade ou se apenas parece boa em uma apresentação.

A maior mudança, porém, talvez não estivesse no gabinete presidencial. Estaria no cotidiano de quem faz o Estado funcionar. Em cada ministério, secretaria, autarquia e empresa pública, a inteligência artificial poderia ampliar a capacidade dos servidores públicos, organizando dados, conectando informações e ajudando a transformar rotinas lentas em decisões mais inteligentes.

Na saúde, por exemplo, ela poderia antecipar aumento de demanda em determinadas regiões, identificar risco de falta de medicamentos, detectar mudanças no perfil de doenças e orientar melhor a distribuição de profissionais e recursos. Em vez de reagir somente quando a crise já está instalada, o sistema público teria melhores condições de agir antes. Não seria a IA tomando o lugar de médicos, enfermeiros, gestores ou prefeitos, mas oferecendo a eles uma visão mais ampla e rápida da realidade que precisam enfrentar.

Na educação, a tecnologia poderia identificar sinais de evasão escolar antes que o aluno desaparecesse do sistema, mostrar quais escolas estão perdendo desempenho, apontar onde faltam professores e revelar práticas que efetivamente geram melhores resultados. Uma criança não deveria depender da sorte de estar em uma rede mais organizada para receber atenção quando começa a ficar para trás. Quanto mais cedo o problema é percebido, maior é a chance de a escola agir e mudar uma trajetória.

Na segurança pública, a inteligência artificial poderia integrar dados que hoje vivem separados em boletins de ocorrência, investigações, registros de veículos, imagens, mapas e sistemas estaduais. O objetivo não seria criar um Estado de vigilância, mas dar às forças de segurança instrumentos para compreender padrões, priorizar recursos e prevenir situações que hoje só são tratadas depois que a violência aconteceu. Na infraestrutura, poderia acompanhar obras, contratos, fornecedores, prazos e custos com uma transparência muito maior, alertando sobre desvios e atrasos antes que se transformassem em prejuízo permanente.

O mesmo vale para a economia e para a gestão pública. A IA poderia ajudar a analisar efeitos de políticas tributárias, identificar gargalos logísticos, compreender cadeias produtivas, antecipar riscos climáticos e avaliar onde o investimento público produz mais retorno social. Não se trata de acreditar que um algoritmo possui uma resposta pronta para todas as questões nacionais. Trata-se de reconhecer que um país do tamanho do Brasil não pode continuar sendo administrado como se dados, contexto e capacidade de previsão fossem itens secundários.

Há também uma dimensão ainda mais delicada: a eficiência do próprio Estado. O debate sobre serviço público costuma cair em duas simplificações ruins. De um lado, há quem trate todo servidor como ineficiente. De outro, há quem trate qualquer avaliação de desempenho como uma ameaça. As duas visões ignoram a realidade. Há servidores extremamente comprometidos trabalhando com pouca estrutura, sistemas ruins e processos que impedem a entrega. Há também rotinas que se perpetuam sem resultado, recursos mal utilizados e estruturas que não conseguem prestar contas à população.

Uma inteligência artificial poderia tornar essa discussão mais madura. Ela ajudaria a identificar processos parados, prazos repetidamente descumpridos, áreas sobrecarregadas, recursos mal distribuídos e políticas que consomem muito sem produzir o resultado prometido. Mais do que medir presença ou quantidade de tarefas, seria possível compreender o que foi entregue, com que qualidade, em quanto tempo e para quem. Isso permitiria valorizar quem faz um bom trabalho, corrigir onde há falhas e reduzir a distância entre o dinheiro público gasto e o benefício público percebido.

Mas é justamente nesse ponto que a tecnologia precisa ser tratada com responsabilidade. Nenhuma inteligência artificial deveria ser usada para julgar pessoas sem contexto, punir servidores por indicadores isolados ou transformar a administração pública em uma máquina de controle desumano. Um número não explica sozinho a realidade de uma escola em uma área vulnerável, de um hospital em colapso ou de uma unidade pública sem estrutura. A IA pode revelar padrões, apontar riscos e oferecer diagnósticos melhores. A decisão, a responsabilidade e a sensibilidade continuam sendo humanas.

Esse é o limite e, ao mesmo tempo, a grande oportunidade. Uma IA pode calcular consequências, mas não define sozinha quais valores devem orientar um país. Pode indicar qual decisão é mais eficiente, mas não determina qual é mais justa. Pode mostrar que uma política reduz custos, mas não pode decidir, por conta própria, o que uma sociedade está disposta a priorizar, proteger ou sacrificar. Governar não é apenas otimizar recursos. É escolher caminhos quando diferentes interesses legítimos entram em conflito.

Por isso, talvez o futuro não esteja em entregar o poder a uma inteligência artificial. O futuro está em criar líderes públicos e servidores aumentados por ela: pessoas com mais capacidade de compreender, prever, executar e prestar contas. Pessoas menos reféns da improvisação, da informação incompleta e da burocracia que se tornou fim em si mesma. Pessoas capazes de usar tecnologia não para se afastar da população, mas para enxergar melhor onde estão os problemas e quais decisões realmente melhoram a vida de quem depende do Estado.

A pergunta mais importante, então, não é se uma IA seria melhor presidente do que qualquer candidato humano. A pergunta é outra: se ela já é capaz de identificar ineficiências que naturalizamos, antecipar problemas que apenas remediamos e conectar informações que insistimos em manter separadas, por quanto tempo ainda vamos aceitar ser governados sem essa inteligência?

E aí: você votaria em um homo synapticus para presidente?

 

 

Leandro Monteiro é Vice-Presidente da ADVB, Chairman da Virtual Fans, CEO da ClubBrain.ai e Autor de “Ontologia da Decisão Empresarial”

 

 

 

 

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