Seguro viagem e proteção residencial respondem a exposições diferentes que surgem no mesmo momento: enquanto o viajante assume riscos no destino, seu patrimônio permanece em casa.
Poucas decisões financeiras são planejadas com tanto entusiasmo quanto uma viagem.
Passagens são comparadas durante semanas. Hotéis são avaliados. O câmbio é acompanhado. Restaurantes entram no orçamento. Passeios são reservados. Malas são organizadas e documentos revisados.
Existe, entretanto, uma contradição nesse nível de planejamento.
Enquanto pensamos detalhadamente em tudo o que pode ser necessário no destino, raramente analisamos com a mesma atenção dois patrimônios simultaneamente expostos: a pessoa que viaja e a residência que permanece para trás.
Essa perspectiva muda a maneira de compreender seguro viagem e seguro residencial. Não se trata de combinar dois produtos, mas de reconhecer dois riscos existentes durante o mesmo período.
Viajar é também uma operação financeira
Uma viagem contemporânea pode representar milhares ou dezenas de milhares de reais.
Passagens, hospedagem, alimentação, câmbio, transporte, ingressos e compras formam um orçamento relevante. Quando ocorre um imprevisto, portanto, não é apenas a experiência que está ameaçada. Existe patrimônio financeiro envolvido.
A percepção do consumidor parece estar evoluindo nessa direção. Nos primeiros cinco meses de 2025, o seguro viagem arrecadou R$ 390 milhões, crescimento nominal de 11,66% e real de 6,20% sobre o mesmo período do ano anterior, segundo a SUSEP.
O crescimento sugere que uma parcela maior dos viajantes começa a incorporar proteção ao planejamento.
Mas ainda existe uma tendência de reduzir seguro viagem a uma única função: assistência médica no exterior. Essa é apenas parte da equação.
Uma emergência no exterior é também um problema patrimonial
O risco médico é particularmente importante porque os custos de atendimento variam enormemente entre países.
Uma despesa inesperada em moeda estrangeira pode comprometer rapidamente o orçamento da viagem e, dependendo da gravidade, alcançar reservas financeiras que não tinham qualquer relação com as férias.
Mas seguro viagem pode envolver, conforme o produto e as coberturas contratadas, outras situações: despesas médicas e hospitalares, traslado, regresso sanitário, morte acidental, bagagem e diferentes assistências.
Novamente, o contrato é determinante.
“Seguro viagem” não significa cobertura ilimitada para qualquer problema ocorrido fora de casa.
Destino, idade, duração, atividade realizada e condições contratuais precisam ser avaliados. Quem pretende praticar determinados esportes, por exemplo, possui exposição diferente de quem fará turismo urbano. Quem viaja por muitos meses possui necessidade diferente de quem ficará quatro dias fora.
Proteção eficiente começa pela adequação.
Mas existe uma segunda viagem acontecendo: a casa fica sozinha
Enquanto a família embarca, sua residência entra em uma condição diferente.
Ela pode permanecer vazia durante dias ou semanas. Isso altera determinadas exposições.
Um vazamento que seria percebido imediatamente pode continuar por horas. Uma pane elétrica pode atingir equipamentos sem que alguém esteja presente. Uma tempestade pode danificar telhado, janela ou área externa. Uma queda prolongada de energia pode afetar alimentos.
Dependendo das circunstâncias e das coberturas contratadas, roubo, incêndio, danos elétricos, vendaval e outros eventos também fazem parte da análise patrimonial.
A SUSEP relaciona incêndio, danos elétricos, roubo e furto, alagamento, vendaval e outras possibilidades entre as coberturas que podem ser oferecidas em seguros residenciais.
A palavra “podem” é essencial: o consumidor precisa saber o que efetivamente contratou.
O paradoxo das férias
Existe algo interessante do ponto de vista comportamental nesse cenário.
Uma família pode gastar R$ 20 mil em uma viagem e dedicar horas para economizar R$ 300 em uma passagem. Pode comparar dez hotéis para reduzir R$ 500 da hospedagem.
Ao mesmo tempo, pode deixar dezenas ou centenas de milhares de reais em patrimônio doméstico sem sequer revisar suas exposições.
Não se trata de irracionalidade. Nosso cérebro dá mais atenção aos gastos visíveis.
Passagem tem preço. Hotel tem preço. Passeio tem preço.
Risco não possui preço aparente até se materializar. Por isso, proteção tende a ser percebida como custo adicional, enquanto um evento potencialmente muito mais caro permanece abstrato.
Planejar férias deveria incluir um checklist patrimonial
Assim como verificamos passaporte e reservas, algumas perguntas deveriam entrar naturalmente no planejamento:
A residência ficará completamente vazia? Existe alguém responsável por verificá-la? Registros de água e gás precisam ser fechados? Equipamentos devem permanecer conectados? Há previsão de tempestades? As instalações elétricas estão adequadas? Quais coberturas residenciais estão ativas? O seguro viagem está compatível com destino e atividades? Os documentos necessários estão acessíveis? Há canais de atendimento disponíveis no exterior?
O objetivo não é transformar férias em exercício de paranoia. É exatamente o contrário.
Planejamento existe para que, depois dele, possamos aproveitar a viagem com menos preocupação.
O barato pode sair caro nos dois lados da viagem
Há um erro recorrente na contratação de seguros: comparar produtos apenas pelo preço.
No seguro viagem, duas opções aparentemente semelhantes podem apresentar limites e condições diferentes. No residencial, coberturas adicionais também podem alterar substancialmente o alcance da proteção.
O consumidor precisa abandonar a lógica de perguntar apenas “qual é o mais barato?” e passar a perguntar “qual risco estou tentando transferir?”.
Esse é um princípio básico de gestão de riscos.
Preço sem contexto diz pouco.
A tecnologia está tornando a proteção mais integrada
A digitalização deve aproximar ainda mais viagem e residência.
Casas conectadas já permitem monitoramento remoto de câmeras, fechaduras, sensores e outros dispositivos. Ao mesmo tempo, seguro viagem tornou-se amplamente contratável por meios digitais.
A tendência é que a experiência de proteção acompanhe o consumidor antes, durante e depois do deslocamento.
Telemedicina, atendimento digital, geolocalização de serviços, alertas e automação residencial tornam a fronteira entre assistência e prevenção cada vez menor.
O seguro do futuro provavelmente será menos percebido como documento guardado e mais como serviço acionável.
Viajar bem também é deixar o patrimônio protegido
Talvez seja necessário atualizar nossa definição de preparação para viajar.
Ela não começa quando fechamos a mala.
Começa quando entendemos o que estamos deixando temporariamente para trás e quais riscos assumiremos no destino.
Passagem, hospedagem e roteiro organizam a experiência.
Proteção organiza a incerteza.
E uma viagem verdadeiramente bem planejada deveria cuidar das duas coisas.
Jorge Eduardo de Souza é Diretor-Presidente da Única Seguros, especialista em gestão de riscos e proteção patrimonial, com certificação internacional pela AIRM. Atua em entidades como ABGR, ANSP e SINCOR-SP, contribuindo para o avanço técnico do setor de seguros no Brasil. Professor e palestrante, tem atuação destacada na formação executiva em seguros, riscos e benefícios corporativos.
Para mais informações, clique aqui.
Referências de dados
• SUSEP – Dados de seguro viagem, primeiros cinco meses de 2025.
• SUSEP – Seguro residencial: orientações ao consumidor.
* As ideias e opiniões expressas nos artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões da ADVB. Para publicar um artigo ou matéria neste Portal ADVB, envie para redacao@advb.org para aprovação da publicação.


















